quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A verdade que devia ser espelho, não arma



Reflexões das aulas de Vedanta com Jonas Masetti Jonas Masetti — Ācārya de Vedanta | Vishva Vidya
para serem vivenciadas...
Essa semana entendi uma coisa que parecia óbvia e não era: trazer a verdade, ou o meu ponto de vista, como uma arma que fere o outro não é coragem, é ignorância. É um jeito de proteger meu ego e me colocar como melhor que a outra pessoa, mascarando a minha própria fragilidade em vez de trazer luz pro que realmente me incomoda. Quando não consigo ver Isvara no outro, quando não entendo meu lugar de entrega, eu fico julgando e condenando o que parece estar fora de mim, sem confiar que aquilo foi colocado ali pro meu crescimento, pro amadurecimento do meu jiva.

Isso apareceu de um jeito bem prático quando pensei nos papéis que desempenho no dia a dia. Usar esses papéis pra ter razão, pra "atacar" ou fragilizar alguém, trazendo agitação pra mente ou pra vida do outro, é um uso inadequado que gera karma negativo em mim mesma. Me afasta da integração comigo, alimenta um falso poder do ego, confortável pra mim e inadequado, até adhármico, pro outro.

Lembrei de momentos em que segurei uma verdade com medo de magoar alguém, e isso virou um peso maior do que se eu tivesse falado na hora certa. Mas percebendo melhor, entendi que às vezes essa verdade estava no meu tempo, não no tempo do outro, e que a forma como ela vinha até mim podia ser dita com mais leveza. Estou trabalhando esse jeito de falar, lidando com pontos de vista e com a adequação do momento. Não é sobre o meu tempo, é sobre o tempo adequado de cada um. E até essa "hora certa" precisa ser olhada com cuidado por mim, não pode ser uma reação à verdade, tem que ser uma escolha.

Isso me levou pra outro ponto que sinto que é o centro de tudo: neutralizar o ego é sobre transformação pessoal, e o outro é só uma peça da minha própria história, ali pra que eu me olhe com verdade e ajuste meu personagem, me libertando dos meus apegos. Minha história não vai mudar. A minha relação com ela é que precisa se transformar. E quando entendo isso, percebo que não há solução pronta pro meu personagem, ele é cheio de falhas, um somatório de muitos karmas. O caminho não é consertá-lo, é entregar a Isvara o resultado das minhas ações e confiar na ordem maior, me abrindo pro que eu sou de fato, em vez de tentar controlar.

Enquanto eu quiser controlar ou julgar pessoas, situações, ou até a minha própria história, estou perdendo tempo e mostrando que não confio em Isvara, na ordem maior. Que eu possa apreciar essa ordem em vez de julgá-la ou agir contra ela.

E é bom lembrar que evolução espiritual não tem nada a ver com acúmulo, status ou privilégio. É maturidade. Uma pessoa comum, sem nenhum recurso especial, pode alcançar Mokṣa antes de alguém que teve tudo a favor e não entendeu nada. Isso tira de mim qualquer desculpa de que preciso merecer mais pra evoluir, e coloca a responsabilidade exatamente onde ela sempre esteve: em olhar pra dentro, com honestidade, sem fugir da própria sombra.

Meu grupo de estudos segue com a Escola [Vishva Vidya](https://vedanta.com.br), sob a condução do professor [Jonas Masetti](https://vedanta.com.br/jonas-masetti), e cada aula tem me mostrado que a verdade que eu buscava usar pra proteger meu ego é, na verdade, o espelho que eu mais precisava olhar.

Vishva Vidya — Vedanta (Vedanta — Autoconhecimento pela Tradição Milenar dos Vedas | Vishva Vidya)
Ensino tradicional de Vedanta com Jonas Masetti Jonas Masetti — Ācārya de Vedanta | Vishva Vidya. Autoconhecimento pela tradição milenar dos Vedas.

domingo, 23 de agosto de 2026

Entre o esforço e a benção


  O que aprendi ouvindo Vedanta essa semana


Essa semana revisitei uma aula do meu grupo de estudos ligado à Escola Vishva Vidya, com o Professor Jonas Masetti e cada vez volto a ouvir esses ensinamentos, mais camadas se abrem. Dessa vez o que ficou vivo em mim foi um convite simples de enunciar e difícil de sustentar: mergulhar nos ensinamentos sem querer ensinar.

Eu dou aulas de yoga, faço trabalho voluntário, estou sempre no lugar de quem cuida e de quem passa adiante pra outras pessoas. E percebi que precisava sair um pouco desse personagem de professora pra simplesmente ficar com as minhas próprias questões, sem pressa de transformar tudo em ferramenta pra alguém. Olhar pra dentro, fortalecer a mente com escolhas, sem deixar que os sentidos me chamem o tempo todo. Fazer japa, fazer puja, não como distração da mente, mas como direção pra ela.

A parte mais difícil foi outra: ouvir a mensagem de Isvara em tudo e em todos, inclusive nas situações difíceis. Eu entendo o conceito. Só que entender e viver são coisas bem diferentes. Na hora que a dificuldade chega, meu primeiro movimento ainda é de controle, de tentar segurar as pontas sozinha, e só depois, com esforço, consigo soltar e escutar o que aquilo está me ensinando.

Isso conecta direto com algo que já vivi várias vezes: momentos difíceis com intensidades bem diferentes. Às vezes reajo com uma serenidade que depois desmorona em desespero, até se acalmar de novo. Às vezes é uma questão duradoura, e eu rezo muito pra ter força de agir com adequação mesmo em meio a emoções contraditórias. E às vezes sou reativa, e depois preciso rever a atitude, o que também não é fácil. O que percebo é que estou tentando lidar melhor com essas intensidades, diminuir um pouco esse botão automático que existe em mim.

E é aí que entendi melhor uma coisa que antes me parecia meio contraditória: se o corpo é impermanente, por que fazer ritual, tapas, tratamento, ao invés de simplesmente aceitar? A resposta que encontrei é que aceitação em Vedanta não é resignação passiva. Cuidar do equilíbrio do corpo, entender a doença como um desequilíbrio a trabalhar, isso é trabalho sobre si. É fortalecer as ferramentas que tenho pra aprender com o que a mãe divina oferece como experiência. O ritual em si já é um caminho de fortalecer a fé, de liberar aprisionamentos que talvez eu nem entenda direito, e de confiar nessa força de Isvara, seja na forma de Ganesha, seja na mãe divina.

Isso também respondeu uma dúvida mais funda: se o karma já se materializou como doença, será que ritual e tapas, que são práticas da mente e do espírito, ainda podem fazer alguma diferença no que já está manifestado no corpo? Não seria tarde demais? Cheguei à conclusão de que não. Corpo e mente são objetos, posso observar e agir sobre eles. Mas nenhum esforço meu é válido sozinho, sem as bênçãos. Preciso do esforço adequado pra apaziguar certas tendências e certos karmas, sabendo que a cura não depende só dessa ação minha, depende da combinação das bênçãos. Por vezes o que eu conquisto não é a cura em si, é a aceitação da mente diante de determinadas questões, e sigo fazendo meu esforço possível dali pra frente.

Fico com essa imagem: o esforço é meu, a benção não é. E é bom assim, porque tira de mim o peso de resolver tudo sozinha e me deixa livre pra fazer só a minha parte, com atenção e com fé.

Gratidão ao Professor Jonas Masetti por esse convite de olhar pra dentro sempre que a vida trouxer alguma dificuldade.